quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mão de ferro por amor ao teatro,Barbara Heliodora.


Entrevista


TEATRO
Contra o paternalismo da crítica teatral




Por Ana Paula Conde

“Passar a mão na cabeça não é positivo para o teatro”, afirma a crítica Barbara Heliodora
Barbara Heliodora é considerada uma crítica severa. Para os que a questionam, ela é ferina e até sarcástica; para os que a admiram, ela é uma espécie de guardiã das montagens nacionais. Aos 80 anos, Heliodora divide seus dias entre escrever críticas para o jornal “O Globo”, as viagens para realizar palestras sobre William Shakespeare e a tradução de peças teatrais, a maior parte escritas pelo dramaturgo inglês. “Estou trabalhando agora em ‘Muito barulho por nada’. Ano que vem deve sair o volume com as dez tragédias do autor pela Nova Aguilar”, diz a crítica, que ainda encontrou tempo para escrever um dos capítulos do livro “O teatro no Brasil no século XX”, organizado por Leonel Kaz e ainda sem previsão de lançamento.
Desde que começou a exercer a atividade de crítica, em 1958, a qualidade das encenações é o único fator que importa em suas análises. Não interessa se o ator, o diretor e o autor são conceituados. “O crítico não pode viver de fé do ofício. Procuro avaliar cada espetáculo separadamente”, explica Heliodora. “Elogiar uma peça ruim é estimular o ruim a se perpetuar”, diz.
Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1923, estudou literatura inglesa na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, e foi professora de teoria teatral na Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), entre 1964 e 1985, período em que esteve afastada da tarefa de escrever críticas para a imprensa.
O interesse pela obra Shakespeare começou na infância e a acompanha até hoje. Heliodora é doutora em artes pela Universidade de São Paulo (USP), com a tese “A expressão dramática do homem político em Shakespeare”, lançada, em 1978, pela editora Paz e Terra. Também é de sua autoria o livro “Falando de Shakespeare” (Perspectiva, 1998).
A seguir, ela fala sobre o paternalismo da crítica, da falta de espaço para a reflexão na imprensa e indica livros para quem deseja entender mais sobre teatro brasileiro.

A senhora é considerada uma crítica severa. Qual a razão desse rótulo?
Barbara Heliodora: Talvez seja pelo fato de respeitar o teatro, por achar que ninguém tem direito de fazer espetáculos mal acabados. A auto-indulgência é muito negativa. Sempre disse isso, desde que comecei a mexer com teatro. Acho que ver uma coisa ruim e elogiar é estimular o ruim a se perpetuar. Um grupo jovem pode não ficar satisfeito com uma crítica, mas espero que pelo menos seus integrantes pensem: “Espera aí, talvez tenha alguma coisa errada”.
Todo mundo fala que só gosto de determinado repertório. Não é verdade. O que gosto é de teatro bem feito. Fazer de qualquer modo é o que não pode acontecer. O problema do Brasil é que em tudo nós precisamos deixar de ser amadores para ser profissionais. Passar a mão na cabeça do que é ruim não é positivo para o teatro.
Em artigo publicado nos “Cadernos de teatro”, editado pelo Tablado, Yan Michalski afirma que, com algumas exceções, a crítica no Brasil sempre foi marcada pelo paternalismo. A senhora acha que é chamada de severa em razão dessa tradição?
Heliodora: Acho que é exatamente isso. No Brasil, dizem que sou severa, mas as pessoas precisam ver como é a crítica no exterior. É de uma severidade de arrasar. Um ator da categoria do Raul Julia, que infelizmente morreu cedo, recebeu a seguinte crítica ao fazer “Othelo”, de Shakespeare: “É preciso que o senhor Júlia e fulano, o outro ator, que agora não lembro o nome, sejam apresentados antes de subirem ao palco”.
Lembro de outra crítica a um ator francês famosíssimo que dizia: “Não há nada em cena que seja válido”. Como o Yan disse, a crítica brasileira sempre foi muito paternalista. Tenho a impressão de que pensam assim: “Ah, falar mal prejudica o emprego das pessoas”. Não concordo. O que acaba com os empregos na área são os maus espetáculos. O espectador que paga o que se paga para ir ao teatro e vê uma coisa abominável faz um voto de castidade por pelo menos dois anos. O mau espetáculo é o que afasta o espectador, não a crítica.


Leia a entrevista na integra no site Trópico, acesse:


É muito interessante vale a pena.

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